Uma vez um jornalista me disse que jornalismo cultural era o triunfo da irrelevância. Achei a frase sensacional, mas não sei se concordo. Jornalismo cultural não é menos relevante que jornalismo esportivo ou agrícola. O que talvez em concorde é que o jornalismo cultural de hoje é irrelevante.
O Guardian fez uma lista das pessoas que arruinaram a primeira década do novo milênio. Esta lista, este tipo de matéria, o tom do artigo são os mairoes aliados da frase do jornalista sobre o triunfo da irrelevância. Eu adoro o Guardian, que é um dos melhores jornais do mundo (e certamente o melhor grupo de mídia deppois da BBC), mas esse artigo tem o tipico fedor das redações de cultura, onde um tipinho metido a cool, que aprendeu a falar uma língua estrangeira na escolinha de milionários que ele estudou e que arrota gozo de admiração com a própria magnitude, senta diante do computador para ficar tentando encontrar frases de efeito que transformem-o num Norman Mailer.
Anos atrás, me lembro de uma coluna que li do Sergio Dávila na Folha. Ele tinha sido mandado para Bagdá, que à época, estava em guerra. O assunto primordial de sua coluna era a dificuldade de se encontrar cerveja na cidade. Claro, certamente esse era o fato mais relevante numa guerra devastadora numa das cidades que originou a civilização ocidental e do Oriente Médio. Nada mais poderia ser dito.
Naquele momento, me lembro que senti nojo do jornalista. O que ele tentava fazer era um golpezinho de cena baixo, imaginando-se retratado como um Andy Warhol misturado com Jack Kerouac, empavonando suas observações inesperadas e “cool”. Inesperada, é inegável. Nem de um zebu do gênero se imaginava tamanha babaquice. Não era jornalismo cultural o que Sergio Dávila fazia no Iraque (aliás, não era jornalismo nenhum, nada além de jatos de escória), mas o tom, a ambição de ter uma “aura” como aquela cultivada no triunfo da irrelevância do jornalismo cultural era a mesma.
As redações de cultura no Brasil nunca se liberaram desse ranço do elemento que quer participar da história ao invés de apresentá-la. Uma entrevista como a que André Caramante fez para a Rolling Stone (não conheço pessoalmente Caramante e acho a RS brasileira algo próximo de um embuste) é um raríssimo exemplo de capacidade de lapidação de um perfil. A regra é a de meia dúzia de amiguinhos que faz o pequeno tráfico de influências para determinar os próximos trends de acordo com o que eles leram na NME, patrocinando suas próprias intervenções culturais – musicais, literárias ou seja lá o que forem – que invariavelmente são um lixo fétido e criando um feudinho onde podem aproveitar das pequenas corrupções que a posição oferece.
Jornalismo cultural está longe de ser – quando bem feito – triunfo da irrelevância (mesmo a frase senso sensacional). O mapeamento cultural adequado, independente das opiniões e gostos do jornalista, adicionam ao jornal um valor histórico decisivo. Não é necessário ir até um livro de Norman Mailer para chegar a essa conclusão. Nos trabalhos de algumas décadas atrás ou em pílulas espontâneas como a de Caramante para a RS, dá para sentir a importância do assunto. Do modo como é feito hoje, no geral, não é só o triunfo da irrelevância. É o triunfo da burrice também. E este triunfo é indiscutível.